Jovem com uma missão no RJ



Já se passaram praticamente seis meses desde que cheguei aqui no Rio de Janeiro. À você caro leitor que não recebeu minhas cartas anteriores, no início do ano eu “embarquei” na vida missionária, através de uma instituição chamada JOCUM – Jovens Com Uma Missão –, que visa treinar jovens dispostos a trabalhar em locais precários, e propagar o evangelho por meio disso. Foram muitas experiências vividas até aqui, e é um prazer poder escrever à vocês.

Após a ETED – Escola de Treinamento e Discipulado, que é o curso de iniciação –, agora estamos na escola CER – Crianças em Risco –, que busca mobilizar, equipar, e habilitar pessoas para que possam alcançar e impactar crianças e suas famílias em situação vulnerável. Tem sido gratificante continuar o trabalho já realizado nos meses anteriores, mas agora, com mais intensidade.


Como eu sinto Deus? 


Segunda feira, por volta das oito horas da noite, o nosso grupo da JOCUM juntamente com pessoal da Unidade Jovem, estava entre a Barra da Tijuca e o Recreio, no posto doze da praia, próximo ao terreirão. Tínhamos uma célula no local, realizamos teatros, louvores, e foi um momento muito único. Até que Leoni, uma criança que estava andando de skate com seus amigos na pista, fez uma pergunta extremamente intrigante a nós: Como eu sinto Deus? A princípio foi algo bem impactante, vir de uma criança uma pergunta tão complexa, mas ao mesmo tempo simples, algo bem diferente do habitual. Explicamos para ele e seu amigo Caio como é  “sentir Deus”, e como ele age em nossas vidas, mudando nossas atitudes no nosso meio de convívio, o amor ao próximo, e como podemos acreditar em um futuro melhor com Jesus. A conversa foi muito interessante, e eles decidiram aceitar a Cristo em seus corações. As vezes menosprezamos as crianças, e sempre criamos paradigmas para não chegar a elas, e mal lembramos que elas são o futuro da sociedade, e não só isso, possuem uma singularidade ímpar, ansiando por carinho e atenção.




Família é favela, favela é família, aqui... a realidade não é tão bela! 

"Moro na favela, cinco de julho, não tenho inveja de nada e nem um pouco de orgulho.
Só quero uma vida digna, para ofertar a meus filhos, assim não vão para o mundo do crime e sim caminhar nos bons trilhos. Me corta o coração, quando minha filha estende a mão querendo algo pra comer, e nem tenho um pedaço de pão. Quando a fome se aproxima, é então que fico calado, entro em desespero, mas não fico igual à um abobado. Vejo meus vizinhos almoçando e se alimentando e eu pobre inútil caído e quase parando. Assim eu não aguento me ponho a chorar, tristeza, tristeza de não se acabar. É, mas esta história não termina com o final feliz, como os contos de fadas, e sim termina com a sentença de um juiz. Só fica o sonho de tudo mudar de ter um emprego pra me ajeitar. E aqui eu continuo sem trabalhar, com fome a passar e ter que esperar, um emprego chegar!" - 
"Ednei Fagundes"

A realidade da favela não é algo agradável, e é muito visível a sociedade, principalmente no Rio De janeiro. Tive a oportunidade de vivenciar isso por três semanas, morando na comunidade do Acari, uma favela ainda não pacificada, dominada pelo tráfico. Mesmo assim, diante a todos esses contras, encontrei uma família lá, crianças fantásticas, e um amor diferente de tudo que já recebi. Foram várias experiências, e não consigo destacar apenas uma à vocês. Conversas com os meninos do tráfico, poder cantar com eles e falar do amor de Cristo, foi uma das coisas mais marcantes. O saldo positivo foi saber que uma semana após deixar o local, três traficantes deixaram seus postos, e agora estão fora de uma vida que só leva a um caminho: A morte. Não só eles, mas crianças foram impactadas naquele lugar, e poder ver na simplicidade o modo como elas te veem como um exemplo a se seguir, tudo isso é o que me move a continuar. Bandido bom não é bandido morto, e criança que é influenciada para o "mal", também pode ser influenciada para o bem, basta você acreditar nelas... 



                                                          Família Acari! 


"Ô tio, fala marrrrcar..." 

Domingo, dia 19 de junho, e mais uma vez a simplicidade e alegria dos "guris" cariocas me impressionaram. Ao sairmos pela manhã cinzenta no bairro do Rocha, encontramos um conjunto habitacional que se chama Carioca. Mais uma vez, nosso grupo da JOCUM buscava encontrar crianças. Com um violão na mão, uma história na ponta da língua, o objetivo era poder alegrar e trazer um pouco de luz à elas em uma realidade tão pesada. Foi aí que encontramos uma quadra de futsal, onde havia muitas crianças jogando. Então, sem hesitar, entramos já chutando a bola, dando olé, falando a linguagem da criança. No começo eu percebi a resistência dos mais velhos, mas após jogarmos um pouco, já estavam todos enturmados. Um garoto em específico, percebeu meu sotaque puxando o "R", e toda hora pedia "Ô tio, fala marrrrcar", e era algo tão simples, mas criou um laço muito legal com ele. A carência dessas crianças as vezes me assusta, e ver como só dar atenção a elas, proporciona uma felicidade imensa.
Após jogarmos um pouco, reunimos todos, cantamos, oramos, e também ouvimos um morador da comunidade falando da necessidade de ter um programa que tire essas crianças da ociosidade, que ensine o caminho, não deixando elas ingressarem no mundo das drogas. Algo que ele falou direcionado as crianças me marcou muito: "O tráfico é a realidade de vocês, é algo normal, corriqueiro, vocês nascem inseridos dentro desse contexto, acreditando que ser o gângster da comunidade é ser alguém na vida. Mas vocês podem mudar isso, estudando, batalhando, não optando pelo caminho mais fácil." Após todo esse momento de reflexão, um por um foi falando um pouquinho de sua vida, e em seguida, nos divertimos com uma boa pelada de bola. Muita vezes achamos mais cômodo não nos envolver em projetos sociais, ou criarmos um, mas não hesite em agir, saiba que o mundo carece disso, carece de Jesus Cristo ser o herói e inspiração.


Ação de Graças

Eu não tenho palavras para agradecer a você caro leitor, que tem me ajudado com suas orações, ofertas, pois todo trabalho é voluntário aqui, e literalmente tenho vivido pela fé. Que Deus continue abençoando você a cada dia mais, conto com sua ajuda sempre, e podem contar com a minha também. Que após ler alguns relatos aqui, você possa ser abençoado como eu fui vivenciando cada experiência aqui, e isso faz com que você se torne parte de todo esse trabalho.

Um grande abraço e com muito carinho,

Jean Marc               

INFORMAÇÕES: 
Meu nome é Jean Marc, nasci em Guiné-Bissau, mas vim para o Brasil ainda pequeno. Meus pais eram missionários da JOCUM - Jovens Com Uma Missão, uma organização missionária sem fins lucrativos - e agora tenho seguido o mesmo caminho desde o início do ano de 2016, aqui no Rio de Janeiro.

                      Para doações e ajuda ao Jean:                 
Banco Bradesco: 0343-3
Conta Corrente: 0163881-5
Em nome de Jean Marc
Telefone para contato: 
WhatsApp: (49) 9819-3623
Contato RJ: (21) 98795-5426

Email: 
jyan_marc@unochapeco.edu.br
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