Ame acima de qualquer circunstância!


Queridos,

Tenho 33 anos e posso dizer que NUNCA tive um pai presente. Não recebi afeto, nem mesmo sustento, pois era minha mãe que atendia todas as minhas necessidades e do meu irmão. Por 30 anos moramos na mesma casa, e vi coisas terríveis que ele fazia em consequência dos vícios. Enquanto sóbrio, era inteligente, organizado, às vezes sério, às vezes bem-humorado, mas sempre reservado e solitário. Diante das bebidas, o que era constante, se tornava irreconhecível nas palavras e atitudes. Como isso era frequente e corríamos risco de vida frequentemente, eu, minha mãe e meu irmão nos mudamos para outro bairro, local onde ele nunca soube pois certamente iria atrás.

Lembro-me que em 2008 ele aceitou a Jesus. A vida dele estava toda errada em todas as áreas, e quando ele começou a colocar Deus no controle de sua vida, o deserto começou a florescer. Até um emprego conseguiu, depois de 20 anos sem trabalhar. Conseguiu reduzir a quantidade de bebida, etc. Teve até uma época que ele ganhou um pequeno e simples livro chamado “Benção e maldição” (Pr Jorge Linhares), e percebeu quanto dano e maldição lançou sob sua vida e família. Chamou a mim e meu irmão, nos pediu perdão (lembro como se fosse hoje), e eu recordo que foi um momento muito forte. Senti como se pesadas algemas espirituais estivessem me libertando de uma dor que eu não conseguia mais suportar. As coisas começaram a melhorar... Mas depois de 3 anos confiou em sua própria força e abandonou tudo. Se afastou, parou de ir à igreja, voltou a beber tanto quanto antes, perdeu o emprego, a família cada dia mais se afastava porque corria riscos, etc.

Minha relação com ele sempre foi muito difícil, não que eu não quisesse, mas porque não foi construída uma relação afetiva de pai para com filha no decorrer dos anos. Ouvi muitos absurdos, muitas palavras de maldição sob a minha vida, e se não fosse o Senhor a me curar, eu ainda seria hoje uma pessoa depressiva como eu era até minha adolescência, quando aceitei a Jesus como Senhor da minha vida. Mas eu tentava na medida do possível. Como ele passou a morar sozinho depois que nos mudamos de lá, todas as vezes que eu ia visitá-lo demonstrava meu amor com tarefas... não tinha muito assunto, mas eu fazia faxina na casa dele, pois de organizado e cuidadoso passou a se descuidar. Fazia comida, almoçávamos e deixava uma qtde pronta pra que ele pudesse e sentir cuidado pela filha. Mas eu não ia lá sempre. Além da distancia e de minha falta de tempo, era muito sofrimento pra mim estar lá. Mas enquanto pude estar com meu pai fiz tudo o que eu pude. Tentei médicos, tratamento contra a dependência química, etc, mas ele não queria , não aceitava. Com o tempo ele começou a ficar mais sensível na saúde, e sem conseguirmos levar ao médico nem mesmo à força, as coisas foram piorando.

Há alguns dias meu pai veio a falecer. Já era idoso (69 anos) e infelizmente o motivo do falecimento foram as consequências geradas por mais de 50 anos de bebida alcoólica e fumo. Há muitos anos vinha sofrendo mas não permitia que eu nem meu irmão o levássemos ao médico. Tentamos de várias formas, mas não conseguimos. Até que um dia chegamos lá e ele estava quase desmaiado. Ainda conseguia falar, mesmo que com dificuldades. Meu irmão deu um banho nele, pois não conseguia ficar de pé sozinho, e então meu irmão disse que se ele não aceitasse ir ao Hospital conosco, chamaríamos o SAMU. Ele resistiu muito e não aceitou. Também não tinham como pegarmos pelo braço e levar a força. Até que ligamos pro SAMU e tive a informação que sem a permissão dele os Bombeiros não poderiam levá-lo. Argumentei pois aquela era a única forma de levar meu pai e ser socorrido. A médica então perguntou se ele conseguia falar e eu disse que sim. Com dificuldades passei o telefone pra ele e a médica conseguiu convencê-lo de autorizá-lo. Falei pra ela aproveitar e autorizar o envio do carro antes que ele mudasse de ideia. E os bombeiros chegaram. Foi um dia muito difícil... nunca me esquecerei. Dia 11 outubro de 2015, domingo pela manhã, os bombeiros desceram meu pai com um cobertor pela escada, pois não não conseguia mais andar, e lá embaixo o colocaram na maca. Fui junto com ele na ambulância, e lá chegando foi direto pra sala vermelha do Hospital Rocha Faria. Como todo hospital público no Brasil, péssimas condições, dificuldade de vaga, falta de higiene, macas sujas, pacientes deitados sem lençol, falta de espaço para circular e estar próximo como acompanhante. Muitas dificuldades. Em 2 dias meu pai intercalou a sala vermelha e verde várias vezes, por falta de vaga. Pela gravidade ele não deveria ter saído da vermelha, aliás, deveria ter ficado no CTI. Na sala vermelha tem muito “entra e sai” e é extremamente vulnerável a bactérias. Aliás, todo o hospital é passível de bactérias... a cada minuto eu me horrorizava com as coisas que eu via...

Fiquei durante todo o dia de domingo e segunda com meu pai enquanto estava na sala verde, e meu irmão à noite. Quando teve crises era transferido para a vermelha e lá não pode entrar acompanhante.

Enquanto era possível acompanhá-lo, tinha que cuidar das cobertas, segurar a máscara de oxigênio durante quase todo o dia pois ele tirava, tive que dar todas as refeições na boca com uma colherzinha, pois nem no canudinho ele conseguia mais. Ele ficava me olhando, e parecia que estava percebendo que uma das pessoas que ele mais maltratou era quem estava ali com ele até o final. Relato isso em lágrimas.... E ele me olhava, algumas vezes quando conseguia dizer algo falava comigo com alguns assuntos muito confusos, já efeitos da confusão mental causada pela insuficiência renal. Hoje entendo que a função dos rins é filtrar e impedir que as impurezas cheguem ao sangue e quando isso acontece a pessoa fica confusa em seus pensamentos e relatos. Quando ele dizia algo estranho, me doía lá dentro, mas eu tentava me mostrar forte e com carinho entrava na conversa dele, mesmo nos assuntos mais loucos que surgiam. Só pra não gerar ainda mais desconforto.

Na segunda à tarde ele ficou muito inquieto e estava com muita falta de ar, mesmo com a máscara de oxigênio 24h desde domingo pela manhã. O pulmão já estava muito debilitado. Eu chorei muito e corri para chamar o médico. Ele disse que não podia fazer nada e que eu deveria chamar a enfermeira. A chamei e ela me respondeu o mesmo. Fiquei chorando sem saber o que fazer ao ver meu pai naquela situação e eu sem poder fazer nada. Era feriado, e os médicos somem do plantão. Corria de um lado pro outro e um mandava falar com o outro, até chegar a um médico mas não aparecia um... foi difícil. Desisti e continuei com meu pai.. depois de um tempo a inquietação melhorou um pouco... dei as refeições líquidas na boca, cuidei, fiquei ali clamando pela misericórdia de Deus. Eu não sabia se ele sobreviveria, mas independente disso que queria que o Senhor me desse a certeza da salvação dele. Seria meu maior presente. Depois de um tempo passaram umas irmãs orando todos os doentes. Elas iam perguntando um a um quem queria oração e iam orando... ao chegar ao meu pai, eu só chorava. A irmã orou por ele e no final me disse: “Filha, tenha paciência com seu pai”. Ali eu entendi que eu deveria cuidar dele da melhor forma possível, independente do que viria. Assim fiz. Alguns minutos depois, o Espírito Santo falou muito forte ao meu coração: “Auxilia seu pai para que ele reafirme o voto feito com Jesus”. Eu resisti um pouco achando que era coisa da minha cabeça, mas era forte. Então falei no ouvido dele: “Pai, reafirma seu voto com Jesus”. Ele respondeu que sim, e que ele já tinha aceito.

Às 20h falei pra ele que ia embora e que meu irmão iria me render pra ficar lá a noite toda com ele. Disse que eu voltaria na manhã seguinte... (estou em lágrimas...). Mas esse novo encontro não aconteceu. Até a hora que eu permaneci ali ele tinha tido uma certa melhora. Meu irmão viu e se alegrou também. Pela madrugada ele teve outra forte crise, meu irmão conseguiu uma nova transferência para a sala vermelha (sempre era ele que conseguia), e ali ele ficou, até falecer na terça, 13 de outubro às 19h pode pneumonia, enfisema pulmonar, insuficiência renal e choque séptico, que pelo que pesquisei seria manifestação de bactérias que o debilitaram ainda mais, levando-o ao óbito.

Sabe, enquanto ele estava vivo, era irredutível e estava sem controle nos vícios. Corria muitos riscos e eu ficava com meu coração na mão com medo de acontecer alguma coisa com ele na rua, bêbado, e nunca sabermos o que aconteceu. Muitas vezes eu fiz bilhetinhos com meus telefones de contato e do meu irmão e pedia pra ele não ir a lugar nenhum sem o papelzinho na mochila ou na carteira.

Meu pai partiu, chorei muito e às vezes ainda me dói saber que aqui na Terra não o verei mais, mas ao mesmo tempo sinto paz, porque Deus me deu a oportunidade de ajudar meu pai a reafirmar o voto com o Senhor. Eu creio que nos veremos na Glória !

Eu tive muitos motivos para ter ódio do meu pai e não procurá-lo mais aproveitando o motivo da minha mudança, mas o Espírito Santo me ensinou que o PERDÃO gera paz não só pra quem perdoa, como para quem aceita o perdão. Se eu não tivesse perdoado meu pai, nem dado assistência, mesmo com toda a resistência que tive de ir até ele, certamente diante de seu falecimento eu estaria me culpando por não ter feito o que deveria dando suporte e amor. Amor não é apenas sentimento, mas atitude. Ame acima de qualquer circunstância!

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Esse é meu relato sincero e pessoal redigido com muitas lágrimas em 21 de outubro de 2015: 1 semana após o falecimento do meu pai RENATO MENI (in memorian).

Juliana Meni.

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Texto do amigo Cristiano Ramos

“A morte é a coisa mais certa que temos em nossa vida. O natural neste mundo é nascer, crescer, reproduzir e morrer. Mas nós não sabemos lidar com ela. Na Bíblia lemos: “Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos.” (Salmos 116.15) E Paulo nos ensina a encará-la como algo corriqueiro, que não nos abala, mas nos une ao Pai quando fala: “Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro.” (Filipenses 1.21)


Quando perdemos um ente querido, sofremos, choramos desesperadamente como se não houvesse mais vida para nós. Somos criados com alma, por isso, é normal sofrermos a dor da perda. Deus sabe tanto disso que enviou a nós o Espírito Santo, consolador. “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre.” (João 14.16) Ele está perto de nós, chorando conosco, e intercedendo ao Pai por nós com gemidos inexprimíveis (Romanos 8.26)”

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