E se as interrupções forem na verdade as oportunidades ?

NOUWEN, Henri. Crescer: os três movimentos da vida espiritual. São Paulo: Paulinas, 2000.





“MOLDANDO AS INTERRUPÇÕES

Visitando a universidade de Notre Dame, onde fui professor por alguns anos, encontrei um velho e experiente professor, que passara a maior parte de sua vida ali. E, enquanto passeávamos pelo belo campus, ele disse com certa melancolia em sua voz: "Sabe... Passei a vida inteira reclamando que meu trabalho era interrompido constantemente, até que descobri que minhas interrupções eram meu trabalho".

Não é verdade que muitas vezes vemos os vários eventos de nossa vida como interrupções, grandes ou pequenos, que interrompem nossos planos, projetos e esquemas de vida? Não sentimos um protesto interior quando um aluno interrompe nosso curso? O mau tempo, nosso verão? Uma doença, nossos bem programados planos? A morte de um amigo querido, nossa tranquilidade? Uma guerra, nossas ideias sobre bondade do homem? E as tantas realidades crueis da vida, os nossos bons sonhos sobre ela? Não é verdade que essa linha infinita de interrupções cria em nosso coração sentimentos de raiva, de frustração e mesmo de vingança, que chegamos a ver a possibilidade de envelhecer tornar-se sinônimo de ficar amargo?

Mas, e se as interrupções forem na verdade as oportunidades? E se forem desafios para provocar uma resposta interior pela qual crescemos e chegamos à totalidade do ser? E se os eventos de nossa história nos estiverem moldando, como o escultor molda a sua argila? E se apenas pela obediência a essas mãos que moldam possamos descobrir nossa vocação e tornarmo-nos pessoas maduras? E se todas as interrupções inesperadas na verdade forem convites para abandonar estilos de vida antiquados e fora de moda e abrir novas áreas de experiência? Finalmente, e se nossa história não for uma sequência cega e impessoal de fatos sobre os quais não temos controle e revele-nos uma mão-guia, que aponta para um encontro pessoal no qual todas as nossas esperanças e aspirações serão satisfeitas?

Então nossa vida seria sem dúvida diferente, pois o destino seria oportunidade, as feridas seriam um aviso e a paralisia seria um convite para buscar fontes mais profundas de vitalidade. Então podemos procurar esperança em uma cidade que chora, em hospitais incendiados e em pais e filhos desesperados. Então podemos afastar a tentação do desespero e falar sobre a árvore fértil enquanto testemunhamos a morte da semente. Então, sem dúvida, podemos escapar da prisão de uma série anônima de eventos e ouvir ao Deus da história, que nos fala no centro de nossa solidão e responde a seu sempre novo chamado à conversão.”
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